segunda-feira, 30 de julho de 2012

No meu olhar



Num pedaço de papel branco risco a preto  a dor que por vezes me dilacera e apago as lágrimas que teimosas insistem em cair. Pinto de cinza os meus sonhos e com negro cubro os desejos que gritam em meu peito e que queimam a pele quando de noite em sonhos te sinto chegar.

Vejo-me de novo perdida num mundo que durante tanto tempo guardei no sótão fechado, cuja chave enterrei bem longe, sem mapa para nunca mais a encontrar. Quis o destino que por um acaso na mesma tropeçasse.

Tenho medo do encontro que nunca há-de chegar. Não quero que vejas alem dos meus olhos e descubras todos os meus sentimentos que teimo em esconder. Tenho receio de olhar nos teus olhos e de me encantar com o brilho que deles emana, levando-me de novo a sonhar o impossível. Escondo-me nas frases que trocamos, guardo nas entrelinhas os meus segredos para que não consigas enxergar que no mais íntimo da minha alma, no recanto mais recôndito do meu coração caminho de encontro a ti.

No silêncio da noite ouço a melodia do amor, anseio pelo teu toque, pelo som da tua voz sussurrando em meus ouvidos e sinto-me à deriva.

Nas palavras que te escrevo coloco o cuidado para que não percebas o amor que cresce em meu peito, a vontade de te amar com toda a intensidade. Guardo-me, pois não quero ser para ti um singular rosto no meio da multidão, não quero que saibas que quando em ti penso sinto que alcanço as nuvens e as estrelas e que nesse momento a distância traz-me a saudade e a incerteza dum futuro que nunca será real. Uma saudade de algo que não vivo e nem sei se viverei.

Não olhes para mim, para que não vejas no meu olhar o quanto de ti existe dentro de mim!

terça-feira, 17 de julho de 2012

O Rio




As palavras são e sempre foram o meu escudo e a minha libertação. Pego em cada letra e deixo fluir os sentimentos em cada risco, como um rio que lava as pedras em sua passagem. 

Há momentos em que me fundo nas águas desse mesmo rio e deixo que a minha alma siga livre, rodopiando no leito, beijando as margens, permitindo-me sentir. Existem outros que me escondo nas pedras para que nenhuma corrente me leve e me transporte para um negro pântano, onde a dor chora à noite e cujos lamentos o vento transporte, em lágrimas que jorram das folhas de estrondosas árvores que cobrem as margens.

Há ainda aqueles momentos  que, como hoje, sento-me na margem sob a pedra mais alta para que possa olhar o espaço que me envolve e reflectir que forma devo eu tomar. Mas o medo ganha forma, as perguntas ecoam em cada rápido que desce a caminho do mar e eu começo a sentir o rodopio da queda antes mesmo de atingir as correntes frias dessa água, umas vez serena e límpida outras suja e conturbada.

Opto pela pedra...pela segurança do não amor, pela paz fictícia do vazio, pelo calar da emoção, pela solidão consentida quando no leito pouso e ali me deixo ficar!